Sete usinas para entender a geração de energia da CEEE
Por Camila Zanatta · Publicado em 18 de outubro de 2026 · Atualizado em 18 de outubro de 2026

Usina tem endereço, rio e data. Por isso a geração é a parte mais fácil de contar da história da CEEE e também a que mais confunde, porque cada usina carrega uma data de decreto, uma de obra, uma de inauguração e uma potência que muda conforme o documento.
As sete usinas abaixo não são as únicas. Foram escolhidas porque cada uma marca uma etapa e porque os números e as datas podem ser comparados em documentos públicos.
1. Gasômetro, 1928: a termelétrica da capital
A Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, foi inaugurada em 1928 como termelétrica a carvão, num prédio projetado pelo arquiteto Anton Floderer, segundo o memorial descritivo da concessão administrativa do edifício. A obra foi feita pela companhia privada CEERG e, naquele ano, o serviço da capital passou ao grupo norte-americano Amforp. Mais tarde a usina integrou o parque da CEEE.
O fim das operações tem duas versões: o memorial fala em 1974, e a Memória da Eletricidade diz que a Nova Usina Termelétrica de Porto Alegre, de 1968, permitiu desativar a antiga. O prédio foi tombado nos anos 1980, em 1982 pelo município e em 1983 pelo Estado, conforme o memorial, e virou espaço cultural a partir do fim da década. A chaminé, erguida em 1937 para reduzir a fuligem, ainda domina o conjunto.
2. Passo do Inferno, 1947 ou 1948: a primeira hidrelétrica
Em São Francisco de Paula, no rio Santa Cruz, Passo do Inferno foi a primeira hidrelétrica da CEEE. A potência é modesta: um ato federal de 1999 lista 1,49 megawatt para ela. O Estado fala em 1948, e a Memória da Eletricidade, em 1947. Mais do que o tamanho, importa o que a usina abriu: o conjunto hoje chamado Sistema Salto, ligado a Canela, nasceu do projeto para os rios Santa Cruz e Santa Maria.
3. Canastra, 1956: a queda de 333 metros
Em Canela, perto das cabeceiras do rio Santa Maria, a usina de Canastra aproveita uma queda de 333 metros, segundo o Estado, que a descreveu em 2006 com duas unidades e 44 megawatts. A primeira máquina funcionou em 1956 e a segunda no fim do mesmo ano, quando uma linha de 69 quilovolts ligou Canastra a Bugres, também em Canela, e linhas de 138 quilovolts a conectaram à subestação de Cachoeirinha, na região metropolitana. O investimento somou cerca de 9 milhões de dólares da época. As portarias federais listam 44,8 megawatts, uma variação pequena que mostra como a mesma usina aparece com números ligeiramente diferentes.
4. Jacuí, 1962: o primeiro grande investimento
Em Salto do Jacuí, a usina que hoje leva o nome de Leonel de Moura Brizola, e até 2005 se chamava simplesmente Jacuí, foi inaugurada em setembro de 1962 pelo presidente João Goulart e pelo governador Brizola, informa o Estado. São 180 megawatts e seis grupos geradores, alimentados pela água represada na barragem Maia Filho. Foi o primeiro grande investimento da empresa depois das hidrelétricas da Serra e da usina de Ernestina, e abriu caminho para as grandes obras do rio Jacuí. A Memória da Eletricidade registra que três unidades entraram em operação em 1962, na primeira etapa.
5. Passo Real, 1973: a concessão que vem de 1945
Também em Salto do Jacuí, Passo Real ficou pronta em 1973, com 158 megawatts, segundo o Estado. A concessão remonta ao decreto federal de 29 de outubro de 1945, citado na portaria de 1999 que a prorrogou. Isso mostra a distância entre o título jurídico e a obra: o direito de explorar aquele trecho do rio existia 28 anos antes de a usina estar pronta.
6. Itaúba, 1978: a maior do conjunto
Em Pinhal Grande, Itaúba é a maior usina que a CEEE operou: 500,4 megawatts na portaria federal de 2020, contra 512,4 megawatts na de 1999, e um reservatório de quase 13 mil hectares, segundo o Jornal do Comércio. O jornal e o comunicado do Estado dão 1978 como o ano de inauguração, e a concessão se apoia num decreto federal de dezembro de 1971. Três datas, três etapas: título, obra, inauguração.
7. Dona Francisca, 2001: a usina feita em parceria
Também no Jacuí, Dona Francisca tem 125 megawatts e foge ao padrão: nasceu de um consórcio que reuniu empresas públicas e privadas. As obras, iniciadas nos anos 1980, pararam no fim da década e foram retomadas em julho de 1998 pela CEEE junto com o consórcio, segundo a Memória da Eletricidade. A usina entrou em operação em 2001, informa o Estado. A CEEE foi operadora e uma das sócias, o que explica por que comunicados estaduais separam a potência própria, de 909,9 megawatts em 2012, da potência em parceria, de 319,8 megawatts.
O que mudou com as vendas
Quando a geração foi separada, em 2021, ela virou a CEEE-G, vendida em julho de 2022 à CSN. O Estado informa 920,64 megawatts de potência outorgada, e a portaria federal de 2020 lista 920,4 megawatts instalados num conjunto de usinas que ganhou nova concessão, de 30 anos. No balanço do segundo trimestre de 2026, a CSN ainda trata a usina de Jacuí como parte da CEEE-G.
A lista de usinas não conta o que acontece fora delas: a transmissão, a distribuição e o preço da energia. Esses temas aparecem nos outros artigos. E como cada documento usa uma potência e uma data, a regra para quem cita é dizer sempre qual número, de qual ano e de qual documento.
Fontes consultadas: Portal do Estado do RS, matérias sobre os 50 anos da usina de Canastra, 2006, sobre os 50 anos de operação da usina do rio Jacuí, 2012, e sobre os 65 anos da companhia, 2008; Memória da Eletricidade, verbete “Companhia Estadual de Energia Elétrica - CEEE”, acervo digital; portarias federais de Minas e Energia nº 278, de 1999, e nº 437, de 2020; Jornal do Comércio, reportagem sobre as hidrelétricas do centro do Estado, 2023; memorial descritivo da concessão administrativa da Usina do Gasômetro, Município de Porto Alegre, 2023; Gunter Axt, História em Revista, Universidade Federal de Pelotas, 1998; CSN, resultado do segundo trimestre de 2026.